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Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

Alicerçando Poesia # 391 - Charles Baudelaire


Spleen

Quand le ciel bas est lourd pèse comme un couvercle
Sur l'esprit gémissant em proie aux longs ennuis,
Et que de l'horizon embrassant tout le cercle
Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l'Espérance, comme une chauve-souris,
S'en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D'une vaste prison imite les barreaux,
Et qu'un peuple muet d'infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.

- Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l'Espoir,
Vaincu, pleure, et l'Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

LES FLEURES DU MAL ET AUTRES POEMES, GARNIER-FLAMMARION, PARIS, 1964, P.96



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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Alicerçando Poesia # 390 - Joaquim Pessoa


Bastava-nos amar. E não bastava




Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.



Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.



Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar



a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.



In, 125 poemas antologia poética, Litexa Editora, 1989

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Terça-feira, Janeiro 12, 2010

Alicerçando Imagens # 160 - Gerhard Richter





Gerhard Richter - 1986, 65 cm x 100 cm ,Oil on paper

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Segunda-feira, Janeiro 04, 2010

Alicerçando Poesia # 389 - Fernando Pessoa


Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento.


Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há.

Inéditas



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Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

BOM ANO PARA TODOS!

Domingo, Dezembro 20, 2009

Alicerçando Imagens # 159 - John Singer Sargent


Fonte de Bolonha

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Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Alicerçando Poesia # 388 - Pablo Neruda


Ode à Poesia


Perto de cinquenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensanguentada.

E agor,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

TRADUÇÃO DE THIAGO DE MELLO - ANTOLOGIA POÉTCA, EDITORA LETRA & ARTES, RIO DE JANEIRO, 1964




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Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

Alicerçando Poesia # 387 - José P. di Cavalcanti JRr.


Lacrymosa dies illa*

À beira-mágoa, lenços fatigados...
Lavo, nos riachos, minhas folhas douradas,
caídas.
Porém, sempre apodrecem, sem arcos,
eu sei,
versos de cellos.

(*Aquele dia será de lágrimas)




Agenda

Amo os vadios, os poetas e os errantes.
Marcamos encontro nas revoltas.





Durmo em paz

Não oro ao adormecer.
Recito-te.

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Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Alicerçando Poesia # 386 - Demódoco - Grécia - sec. VI a.C.

A Víbora

(Epigrama, XI. 237)





Um dia, uma pérfida víbora mordeu Capadoce. Morreu?

Não. Quem morreu foi a bicha, devido ao sangue que bebeu.


Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira

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Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Alicerçando Imagens # 158 - John Singer Sargent


Shipping, Majorca

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Terça-feira, Novembro 24, 2009

Alicerçando Poesia # 385 - José Craveirinha

Um Homem Nunca Chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.
Como um homem treme.
Como chora um homem!

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Sábado, Novembro 21, 2009

Alicerçando Poesia #384 - Adélia Prado

Anímico

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de
mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.

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