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Sábado, Novembro 21, 2009

Alicerçando Poesia # - Adélia Prado

Anímico

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de
mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.

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Terça-feira, Novembro 17, 2009

Alicerçando Poesia # 383 - Agostinho da Silva

Sou Marujo, Mestre e Monge

Sou marujo, mestre e monge
marujo de águas paradas
mas que levam os navios
às terras por mim sonhadas

Também sou mestre de escola
em que toda a gente cabe
se depois de estudar tudo
sentir bem que nada sabe

Mas nem terra ou mar me prendem
e para voar mais longe
do mosteiro que não houve
e não haja, me fiz monge

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Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Alicerçando Poesia # 382 - Hilda Hist

"Sinto-me livre para fracassar"


O escritor e seus múltiplos vem nos dizer adeus.
Tentou na palavra o extremo-tudo
E esboçou-se santo, prostituto e corifeu. A infância
Foi velada: obscura na teia da poesia e da loucura.
A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito
Tempo-Nada na página.
Depois, transgressor metalescente de percursos
Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra.
Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar.
A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.
O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”.
E hoje, repetindo Bataille:
“Sinto-me livre para fracassar”.

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Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Alicerçando Poesia # 381 - Adolfo Casais Monteiro


Jazz

Numa cadência de enigma
entrecortada de espasmos
saltos berros mil ruídos
o jazz canta a saudade
dum sonho que não se sabe.
Chora o jazz a velha perda
dum paraíso qualquer
deixado em longes de sombra.
E no seu ritmo diverso
langoroso e crepitante
martelado e insistente
triste e cheio de alegria
passa a sombra dolorosa
do que há muito está perdido.

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Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Alicerçando Imagens # 157 - Giorgio di Chirico




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Terça-feira, Outubro 20, 2009

Alicerçando Poesia # 380 - D. H. Lawrence - Inglaterra

Democracia

Sou democrata na medida em que amo o livre sol nos homens
e aristocrata na medida em que detesto as possessivas tacanhas criaturas.

Amo o sol em qualquer,
quando o vejo na fronte,
claro, sem temor, ainda que frágil.

Mas, quando vejo os pardos homens prósperos,
hórridos e cadavéricos, inteiramente sem sol,
como obscenos escravos prósperos saracoteando-se macanicamente,
então sou mais que radical, desejo a guilhotina.

E quando vejo os que trabalham,
pálidos e vis como insectos, às corridas
e como piolhos vivendo, com dinheiro contado
e sem nunca erguer os olhos,
então, como Tibério, desejo que a multidão tivera uma cabeça
para decepá-la de um só golpe.
Eu penso que, quando as gentes perderam totalmente o sol,
não têm direito de existir.

in, POESIA DO SÉCULO XX, Antologia, tradução de Jorge de Sena



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Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Alicerçando Imagens # 156 - Leonardo da Vinci





Ainda Leonardo.

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Alicerçando Imagens # 155 - Leonardo da Vinci



Study of Horse and Rider, c. 1480


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Terça-feira, Setembro 15, 2009

Alicerçando Poesia # 379 - Vicente Huidobro - Chile 1893-1948

Marinheiro

Aquele pássaro que voa pela primeira vez
afasta-se do ninho andando para trás

Com o dedo nos lábios
Chamei-vos

Inventei jogos de água
na copa das árvores

Tornei-te a mais bela das mulheres
tão bela que enrubescias as tardes

A lua afasta-se de nós
e lança uma coroa sobre o pólo

Fiz correr rios
que nunca existiram

De um grito ergui uma montanha
e em volta dançámos uma nova dança

Cortei todas as rosas
das nuvens do Este

E ensinei a cantar um pássaro de neve

Caminhemos sobre os meses desatados

Sou um velho marinheiro
que cose os horzontes cortados


Trad. José Bento

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Sábado, Agosto 22, 2009

De férias




Com uma fotografia de outra viagem vos deixo por quinze dias em que estarei perdida na imensidão do Atlântico.

Sábado, Agosto 15, 2009

Alicerçando Poesia # 378 - Ruy Belo


Auto-retrato


Estado civil casado

nacionalidade portuguesa

triste se alegre e sorridente quando triste

muito mais egoísta se se veste de altruísta

chefe só de família cansado

calva prometedora e tendência obesa

à beira dos quarenta anos de idade

e ajoujado ao peso de vários passados

tímido e trágico e capaz de crueldade

tanta quão tamanho o arrependimento

temendo hoje não tanto já fazer o mal

como fazer algumas ou pior uma só vítima

incoerente e instável ora dado a bons bocados

como logo açoitado pelos ventos dos cuidados

poeta para mais por condição

homem que só pensar sabe afinal fazer

que vive a arte o amor a vida até como destruição

digam vossas mercês como devia ele ser

pois sempre assim seria inútil mesmo renascer


Madrid, 1972


In, Dispersos, Todos os Poemas, Assírio e Alvim

Domingo, Agosto 09, 2009

Alicerçando Poesia # 377- José Luís Peixoto


Os Livros


em cada página, o teu olhar, em cada montanha,
a tua voz, deixa-me falar contigo. lembro-me
tão bem de tudo o que me disseste.

as palavras existem. eu quero encontrar-te
sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis
desarrumados onde desarrumo a nossa vida.

em cada página, os campos. em cada montanha,
tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,
o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.

passam anos sobre as palavras. os dias existem.
seguro os livros como se segurasse a tua voz
e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.

In, A Casa, a Escuridão, Temas e Debates

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