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sábado, abril 30, 2011

Alicerçando Palavras # 162 - Frederick Frank




"Once we start to draw, all of a sudden we begin to see again. Were we so blind? How could we have ignored the beauty, the intricacies of these 'simplest things,' the convoluted network of veins in an oak leaf, the graceful curve of the clover's stem, the starry splendor of humble dandelion, the voluptuous curves of a green pepper? . . . It is more than drawing pictures: it is a meditation-in-action on That Which Matters, a veritable breakthrough, an awakening from the years of non-seeing, from the coma of looking-at to firsthand seeing. It is as if the innocent eye of childhood is reawakened through the unjaded eye of the artist.

Frederick Frank, Drawing Opens the Eyes



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segunda-feira, janeiro 17, 2011

Alicerçando Palavras # 161 - Almada Negreiros


A FLOR



Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas, Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essa linhas às pessoas: uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

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terça-feira, setembro 28, 2010

Alicerçando Palavras # 160 - Haukur Haraldsdóttir - Islândia


Quando os peixes começam a ganhar raízes no fundo do mar, os pescadores mergulham num tão longo desespero que desatam a escrever-lhes poemas de amor, que lançam até dois mil metros de profundidade, em papelinhos verdes presos aos anzóis. Os peixes, porém, cansados de tanto lixo, devolvem os papéis e as palavras, aproveitando apenas os anzóis para erguer os seus muros de arame farpado.

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quarta-feira, março 17, 2010

Alicerçando Palavras # 159 - Clarice Lispector


Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também.

Sim, mas é a sorte às vezes. Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranquilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras.

Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial.

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sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Alicerçando Palavras # 176 - Vergílio Ferreira


Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1



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sábado, janeiro 24, 2009

Alicerçando Palavras # 175 - Francisco Quiroz


Pètalos de muerte y èxtasis de amapola

Sobre las sábanas dispuestas en el calendario de alondra, el convidado de piedra alucina buenaventura. Sus besos transversales dialogan con la musa ausente. Así, el hartazgo del silencio en sus labios, distante, ama pétalos de muerte, éxtasis de amapola y, en desnudez hacia la tarde, yace torrencial en el crepúsculo.

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sábado, janeiro 10, 2009

Alicerçando Palavras # 174 - Michel Foucault

As soon as you start writing, even if it is under your real name, you start to function as somebody slightly different, as a "writer". You establish from yourself to yourself continuities and a level of coherence which is not quite the same as your real life... All this ends up constituting a kind of neo-identity which is not identical to your identity as a citizen or your social identity, Besides you know this very well, since you want to protect your private life.

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segunda-feira, dezembro 22, 2008

Alicerçando Palavras # 173 - Samuel Beckett

Pois só há uma maneira de falar de nada, é falar de nada como se fosse alguma coisa, tal como só há uma maneira de falar de Deus, é falar dele como se fosse um homem, o que, é claro, ele foi, em certo sentido, por uns tempos, e só há uma maneira de falar do homem, e isso até os nossos antropólogos perceberam, é falar dele como se fosse uma térmita.

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quinta-feira, dezembro 11, 2008

Alicerçando Palavras # 172 - Carlos de Oliveira

Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.

antologia poética, Ed. Quasi

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domingo, dezembro 07, 2008

Alicerçando Palavras # 171 - Robert Musil


A nossa época transporda de energia. Só conseguimos ver actos e nenhum pensamento. Esta energia terrível provém de não termos nada em que nos ocuparmos. Interiormente, quero eu dizer. Mas, afinal, o homem não faz anais do que repetir, durante toda a vida, um só acto: ingressa numa profissão e progride nela. É tão simples ter força para agir e tão difícil encontrar um sentido para a acção! Hoje muito pouca gente compreende isto. Por isso os homens de acção se assemelham a jogadores de berlinde que assumissem as posições de Napoleão para derrubar nove mecos de madeira! Não me admiraria até se acabassem por chegar a vias de facto, unicamente para ver passar por cima das suas cabeças este mistério incompreensível: ou seja que todas as acções do mundo nunca são suficiente!

O Homem sem Qualidades



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terça-feira, novembro 25, 2008

Alicerçando Palavras # 169 - Martin Amis


Repare nisto: aos olhos dos assassinos comuns, os polícias não são de fiar. Para o pedófilo experimentado, o olhar ingénuo de uma criança é um olhar de luxúria voraz. Mais ou menos da mesma maneira, para os necrófilos activos, as pessoas vivas já estão mortas.
É muitas vezes uma grande prova de afecto deixarmos sozinhas as pessoas de quem gostamos. Quem já tenha chocado com um candeeiro sabe que qualquer velocidade acima de zero, não, obrigado.
Algumas pessoas olham para o pôr do Sol e só conseguem ver sangue no céu ameaçador. E quando, à tardinha, vêem aproximar-se um crucifixo aéreo vindo do ocidente, limitam-se a suspirar, ficando agradecidos por outro Avião ter escapado do inferno.
Se às vezes não se sentir um pouco louco, então acho que você deve estar doído. Todos os clichés são verdadeiros. Ninguém sabe o que há-de fazer. Tudo depende da maneira como se encara as coisas.


Os Outros



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segunda-feira, novembro 10, 2008

Alicerçando Palavras # 167 - Arthur Rimbaud




L'impossible


Ah ! cette vie de mon enfance, la grande route par tous les temps, sobre surnaturellement, plus désintéressé que le meilleur des mendiants, fier de n'avoir ni pays, ni amis, quelle sottise c'était. - Et je m'en aperçois seulement !- J'ai eu raison de mépriser ces bonshommes qui ne perdraient pas l'occasion d'une caresse, parasites de la propreté et de la santé de nos femmes, aujourd'hui qu'elles sont si peu d'accord avec nous.J'ai eu raison dans tous mes dédains : puisque je m'évade !Je m'évade !Je m'explique.Hier encore, je soupirais : "Ciel ! sommes-nous assez de damnés ici-bas ! Moi j'ai tant de temps déjà dans leur troupe ! Je les connais tous. Nous nous reconnaissons toujours ; nous nous dégoûtons. La charité nous est inconnue. Mais nous sommes polis ; nos relations avec le monde sont très convenables." Est-ce étonnant ? Le monde ! les marchands, les naïfs ! - Nous ne sommes pas déshonorés. - Mais les élus, comment nous recevraient-ils ? Or il y a des gens hargneux et joyeux, de faux élus, puisqu'il nous faut de l'audace ou de l'humilité pour les aborder. Ce sont les seuls élus. Ce ne sont pas des bénisseurs !M'étant retrouvé deux sous de raison - ça passe vite ! - je vois que mes malaises viennent de ne m'être pas figuré assez tôt que nous sommes à l'Occident. Les marais occidentaux ! Non que je croie la lumière altérée, la forme exténuée, le mouvement égaré... Bon ! voici que mon esprit veut absolument se charger de tous les développements cruels qu'a subis l'esprit depuis la fin de l'Orient... Il en veut, mon esprit!... Mes deux sous de raison sont finis ! - L'esprit est autorité, il veut que je sois en Occident. Il faudrait le faire taire pour conclure comme je voulais.J'envoyais au diable les palmes des martyrs, les rayons de l'art, l'orgueil des inventeurs, l'ardeur des pillards ; je retournais à l'Orient et à la sagesse première et éternelle. - Il paraît que c'est un rêve de paresse grossière !Pourtant, je ne songeais guère au plaisir d'échapper aux souffrances modernes. Je n'avais pas en vue la sagesse bâtarde du Coran. - Mais n'y a-t-il pas un supplice réel en ce que, depuis cette déclaration de la science, le christianisme, l'homme se joue, se prouve les évidences, se gonfle du plaisir de répéter ces preuves, et ne vit que comme cela ! Torture subtile, niaise ; source de mes divagations spirituelles. La nature pourrait s'ennuyer, peut-être M. Prudhomme est né avec le Christ.N'est-ce pas parce que nous cultivons la brume ! Nous mangeons la fièvre avec nos légumes aqueux. Et l'ivrognerie ! et le tabac ! et l'ignorance ! et les dévouements ! - Tout cela est-il assez loin de la pensée de la sagesse de l'Orient, la patrie primitive ? Pourquoi un monde moderne, si de pareils poisons s'inventent !Les gens d'Eglise diront : C'est compris. Mais vous voulez parler de l'Eden. Rien pour vous dans l'histoire des peuples orientaux. - C'est vrai ; c'est à l'Eden que je songeais ! Qu'est-ce que c'est pour mon rêve, cette pureté des races antiques !Les philosophes : le monde n'a pas d'âge. L'humanité se déplace, simplement. Vous êtes en Occident, mais libre d'habiter dans votre Orient, quelque ancien qu'il vous le faille, - et d'y habiter bien. Ne soyez pas un vaincu. Philosophes, vous êtes de votre Occident.Mon esprit, prends garde. Pas de partis de salut violents. Exerce-toi ! - Ah ! la science ne va pas assez vite pour nous !- Mais je m'aperçois que mon esprit dort.S'il était éveillé toujours à partir de ce moment, nous serions bientôt à la vérité, qui peut-être nous entoure avec ses anges pleurant !... - S'il avait été éveillé jusqu'à ce moment-ci, c'est que je n'aurais pas cédé aux instincts délétères, à une époque immémoriale !... - S'il avait toujours été bien éveillé, je voguerais en pleine sagesse !...O pureté ! pureté !C'est cette minute d'éveil qui m'a donné la vision de la pureté ! - Par l'esprit on va à Dieu!Déchirante infortune !


Une Saison en Enfer

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terça-feira, outubro 28, 2008

Alicerçando Palavras # 165 - Jean-Michel Rey


É provável que, numa vida de leitor, não façamos mais do que, com desvios e digressões contínuas, andar à volta de alguns fragmentos, pedaços de textos, que estariam inscritos em nós - no nosso teatro - de tal modo que estariam sempre para nós de novo disponíveis, legíveis - revisitáveis.

Les enfants du silence


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sábado, outubro 25, 2008

Alicerçando Palavras # 164 - Agustina Bessa-Luíz


A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.


Dicionário Imperfeito



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sábado, outubro 18, 2008

Alicerçando Palavras # 163 - José Eduardo Agualusa


«E você, é feliz?»
«Eu estou finalmente em paz. Não receio nada. Não anseio por nada. Acho que a isto se pode chamar felicidade. Sabe o que dizia Huxley? A felicidade nunca é grandiosa.»
«O que vai ser de si?»
«Não faço ideia. Provavelmente serei avô».



José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados



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segunda-feira, outubro 13, 2008

Alicerçando Palavras # 162 - Deleuze


Há casos em que a velhice dá, não uma eterna juventude, mas, pelo contrário, uma soberana liberdade, uma necessidade pura em que se usufrui de um momento de graça entre a vida e a morte, em que todas as peças da máquina se combinam para lançar no futuro um traço que atravessa as idades: Ticiano, Turner, Monet.

Qu'est-ce que la philosophie?



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quarta-feira, outubro 01, 2008

Alicerçando Palavras # 161 - Maria Gabriela Lhansol


________ abri a porta da casa de escrever, e entrei nela; estava vazia; abri a porta da casa de escrever que estava dentro da casa de escrever – estava vazia; passeei-me à entrada da casa de escrever que havia nessa segunda casa, e senti que o meu objectivo era ficar – ficar muito para além da terra cujas ondas de beleza ressoam ainda na praia aos meus ouvidos.
A casa grande, enorme, que conteria os perdidos – os objectos, cenas da minha vida –, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder «audaciar-se», exprimir-se em obra que fique em toda a parte _______



(Caderno 43, 1995)- retirado do blogue Espaço Llansol

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terça-feira, setembro 16, 2008

Alicerçando Palavras # 160 - Bernardo Soares (Fernando Pessoa)


Depois que os últimos calores do estio deixavam de ser duros no sol baço, começava o outono antes que viesse, numa leve tristeza, prolixamente indefinida, que parecia uma vontade de não sorrir do céu. Era um azul umas vezes mais claro, outras mais verde, da própria ausência de substância da cor alta; era uma espécie de esquecimento nas nuvens, púrpuras diferentes e esbatidas; era, não já um torpor, mas um tédio, em toda a solidão quieta por onde nuvens atravessam.

A entrada do verdadeiro outono era depois anunciada por um frio dentro do não-frio do ar, por um esbater-se das cores que ainda se não haviam esbatido, por qualquer coisa de penumbra e de afastamento no que havia sido o tom das paisagens e o aspecto disperso das coisas. Não ia ainda morrer, mas tudo, como que num sorriso que ainda faltava, se virava em saudade para a vida.

Vinha, por fim, o outono certo: o ar tornava-se frio de vento; soavam folhas num tom seco, ainda que não fossem folhas secas; toda a terra tomava a cor e a forma impalpável de um paul incerto. Descoloria-se o que fora sorriso último, num cansaço de pálpebras, numa indiferença de gestos. E assim tudo quando sente, ou supomos que sente, apertava, íntima, ao peito a sua própria despedida. Um som de redemoinho num átrio flutuava através da nossa consciência de outra coisa qualquer. Aprazia convalescer para sentir verdadeiramente a vida.
Mas as primeiras chuvas do inverno, vindas ainda no outono já duro, lavavam estas meias tintas como sem respeito. Ventos altos, chiando em coisas paradas, barulhando coisas presas, arrastando coisas móveis, erguiam, entre os brados irregulares da chuva, palavras ausentes de protesto anónimo, sons tristes e quase raivosos de desespero sem alma.

E por fim o outono cessava, a frio e cinzento. Era um outono de inverno o que vinha agora, um pó tornado lama de tudo, mas, ao mesmo tempo, qualquer coisa do que o frio do inverno traz de bom – verão duro findo, primavera por chegar, outono definindo-se em inverno enfim. E no ar alto, por onde os tons baços já não lembravam nem calor nem tristeza, tudo era propício à noite e à meditação indefinida. Assim era tudo para mim antes que o pensasse. Hoje se o escrevo é porque o lembro. O outono que tenho é o que perdi.


Livro do Desassossego - 29-1-1932



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quarta-feira, agosto 27, 2008

Alicerçando Palavras # 159 - Jorge Luís Borges


O Pelicano

O Pelicano da zoologia comum é uma ave aquática, com dois metros de envergadura, um bico muito comprido e largo, de cuja mandíbula inferior pende uma membraa avervelhada que forma uma espécie de bolsa para guardar o peixe; o da fábula é menor e o seu bico é pequeno e afiado. Fiel ao seu próprio nome, a plumagem do primeiro é branca, a do segundo é amarela e por vezes verde. Ainda mais singular que o seu aspecto são os seus hábitos.
Com o bico e as garras, a mãe acaricia os filhs com tanta devoção que os mata. Três dias depois chega o pai que, desesperado por vê-los mortos desata a bicar o peito. O sangue derramado pelas feridas fá-los ressuscitar. É assi que referem os bestiários, excepto São jerónimo num comentário ao Salmo 102 («Sou como um pelicano do deserto, sou como uma coruja do deserto»), que atribui a morte dos filhos à serpente. Que o pelicano fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os filhos é uma versao comum na fábula.
O sanue que dá vida aos mortos sugere a Eucaristia e a cru, e assim um verso célebe d'O Paríso (XXV, 113) chama «nosso Pelicano» a Jesus Cristo. O comentário latino de Benvenuto de Ímola esclarece: «Diz-se pelicano porque abriu o costado para nos salvar, como o pelicano que vivifica os filhos mortos com o sangue do seu peito. O pelicano é uma ave egípcia. »
A imagem do Pelicano é habitual na heráldica eclesiástica e ainda é gravada nos vasos sagrados. O bestiário de leonardo da Vinci define assim o pelicano: «Quer muito aos seus filhos e, encontrando-os nos ninhos mortos pelas serpentes, fustia o peito e, banhando-os com o seu sangue, fá-los voltar à vida».


O Livro dos Seres Imaginários



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domingo, agosto 03, 2008

Alicerçando Palavras # 158 - Marguerite Yourcenar


- Voyez, continua Zénon. Par-delà ce village, d'autres villages, par delà cette abbaye, d'autres abbayes, par-delà cette fortresse, d'autres fortresses. Et dans chacun des châteaux d'idées, des masures d'opinions superposés aux masures de bois et aux châteaux de pierre, la vie emmure les fous et ouvre un pertuis aux sages.

L'Œuvre au Noir, 1968



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